Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Educação | Que a classe política tenha noção do ridículo!

25.01.22 | Servido por José Manuel Alho

Depois da colossal degradação salarial, não se percebe tamanha demanda persecutória. Não conheço médicos com cirurgias ou consultas assistidas. Não há notícia de juízes com julgamentos assistidos ou constrangidos a portefólios repletos de reflexões  holísticas ou de outros achaques meditadores. Irra, que é de mais!

A campanha eleitoral confirmou o que já aqui havia afiançado: os partidos não revelam possuir pensamento estratégico para um setor tão crucial como a Educação.

Aliás, são os partidos que, numa pífia deriva populista, se concentram nos professores, afirmando ódios e reservas mentais por resolver. 

Não é por acaso que, confrontados com a provável escassez de docentes, persistem em negligenciar a motivação do professorado, exaurido por múltiplas tropelias cruelmente esclarecedoras.

Os professores trabalharam mais de nove anos sob o imperativo de aceitar sacrifícios da mais diversa índole: congelamento de carreiras, cortes salariais, aumento do IRS e subtração dos subsídios de Natal e de Férias - entretanto declarados inconstitucionais.

Como paga, o Estado, essa entidade de bem, proclamou: o tempo de serviço prestado - e sobre o qual pagaram todos os impostos - não conta sequer para efeitos de progressão na carreira!

Perante tão disruptiva forma de gestão motivacional dos seus recursos humanos mais habilitados, o Ministério da Educação, em complemento, decidiu mergulhar os seus professores na mais intragável sanha bur(r)ocrática de que há memória no ensino português!

Agora, vemos o maior partido da oposição propor que, para efeitos de avaliação do seu desempenho profissional, os professores sejam obrigados a conceber um portefólio, igualmente burrocrático, onde se devem acumular montanhas de evidências administrativas para rivalizarem com aulas assistidas por terceiros.

Depois da colossal degradação salarial, não se percebe tamanha demanda persecutória. Não conheço médicos com cirurgias ou consultas assistidas. Não há notícia de juízes com julgamentos assistidos ou constrangidos a portefólios repletos de reflexões  holísticas ou de outros achaques meditadores. Irra, que é de mais!

Que a classe política tenha noção do ridículo!

Para os mais distraídos, ainda há (muitos) professores que votam. Gente que ajuda, pela sua credibilidade, a fazer opinião. E as suas famílias também!

Imagem Freepik

Educação e Legislativas 22. Sem horizonte de esperança.

04.01.22 | Servido por José Manuel Alho

Lamentavelmente, quem está na oposição ambicionando ser poder, não revela vontade nem tampouco apresenta programa para inverter o atual estado de coisas. A sul-americanização da Educação aparenta ser mais abrangente e consensual do que presumirão os mais ingénuos. Na verdade, não há motivos para vislumbrar qualquer horizonte de esperança.

Estranhamente, ou não, a Educação deixou de constar do leque de prioridades dos principais partidos políticos. Não dá votos nem cativa especiais simpatias. De resto, nos partidos com  histórico de responsabilidades governativas, escasseiam quadros, com pensamento e visão estruturados, sobre área tão determinante para o nosso futuro coletivo. Definitivamente, a Educação deixou de ser sexy e, quando muito, existe um punhado de culambistas que se limita a cultivar o psitacismo.

Sem inocentes, o setor conheceu severa degradação, patrocinada por um poder político que remeteu para a Escola todos os problemas que não soube ou não quis resolver. E tamanho processo, de tão ostensivo, logrou transformá-la no grande braço armado do assistencialismo em Portugal - de que será expoente máximo o 1.º Ciclo - desvirtuando a sua missão original. Muito por influência da solução parlamentar que, nos últimos seis anos, suportou o governo atual, a prioridade parece ter sido a de criar uma escola pública pobre para os probrezinhos, uma espécie de grande cantina social do país, primeiro e último amortecedor das crises resultantes de sucessivas incompetências governativas.

Esta abordagem, que conquistou seguidores da esquerda à direita, levou a que se descurasse a dignidade dos profissionais da Educação. As carreiras foram brutalmente mutiladas e o seu estatuto, aos olhos da sociedade, foi dilacerado por quem, à luz do inscrito na Constituição, deveria - pasme-se! - garantir a sua dignificação.

Os professores, já sem a união e a força de outros tempos, parecem tomados pela Síndrome de Estocolmo, aparentando desenvolver um sentimento de lealdade e compreensão para com uma classe política que (só) os terá ofendido e fragilizado. Para essa prostração, terá contribuído a anestesia dos principais sindicatos de docentes, engolidos pelos inconfessáveis pactos ditados pelos respetivos diretórios partidários, pelo que, desde há muito, aquelas organizações parecem ter optado por iniciativas fofinhas e tolerantes, razão primeira da desmobilização do professorado.

Lamentavelmente, quem está na oposição ambicionando ser poder, não revela vontade nem tampouco apresenta programa para inverter o atual estado de coisas. A sul-americanização da Educação aparenta ser mais abrangente e consensual do que presumirão os mais ingénuos. Na verdade, não há motivos para vislumbrar qualquer horizonte de esperança.

O certo é que o setor, em janeiro de 2022, precisaria de algo para o qual não temos classe política habilitada: um pacto para uma década, que devolvesse segurança e previsibilidade aos alunos, aos professores e às famílias . Estancar sonsos ímpetos pseudorreformistas, que consomem recursos valiosos em derivas experimentalistas, deveria ser o seu primeiro parágrafo!

No mais, não se afigura possível valorizar a carreira docente, combatendo a escassez anunciada de professores, sem:

  • desburocratizar, premiando, o exercício da função docente, deformado por desvios que já atingiram proporções insanas;
  • valorizar quem, apesar de todas as crises e sacrifícios, permaneceu na Escola Pública, reconhecendo para o efeito todo o tempo de serviço efetivamente prestado pelos professores e sobre o qual (já) foram pagos todos os impostos;
  • extirpar da carreira os garrotes iníquos que sobre ela impendem, com as infames quotas de acesso ao mérito nos 5º e 7º escalões.
Imagem Freepik