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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Crónicas com tradição (II) - O laranjal da Gracinda.

25.01.24 | Servido por José Manuel Alho

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Na tasca da Gracinda, verdadeira instituição que já acolheu todo o tipo de tertúlias em Setúbal, ao ponto marcar consecutivas gerações que só a memória local cinzelou no imaginário popular, o final de tarde convoca novos e velhos para o ritual que antecede a “janta com a patroa”.

Ao sabor do tinto vertido nas rústicas tigelas de barro, qual néctar que só as terras do Sado distinguem celebrizando uma casta sem igual, as conversas giram em torno da Pedra Furada, há anos integrada no Museu Nacional de História Natural. O “velho rochedo”, como lhe chamou o pároco local, bem saliente naquele solo arenoso com os seus dezoito metros de altura, a curta distância da estrada da Graça, é afamado entre os anciões. Hoje, ouvem-se, entre roucas interjeições de espanto, mais um par de histórias, que misturam lendas e tradições capazes de seduzir o espírito mais experimentado.

Gracinda, que enviuvou no último verão, parece absorvida pela barulhenta rotina que vai crescendo com o anoitecer. No seu íntimo, vai urdindo planos para estes dias de sol que janeiro tem reservado. Do pensamento não lhe sai o laranjal de que tanto se orgulha. Mima aquele terreno como quem guarda um baú apinhado de recordações, invariavelmente partilhados com o companheiro que se finou sem aviso prévio, vítima de um súbito ataque cardíaco. Quando lá está, até parece que fala com o marido e, por horas, regressa a uma normalidade que sabe já não existir.

Quando o “ti” António, já vergado por uns bons pares de tigelas, insiste em novo abastecimento, Gracinda ergue os olhos com aquele fitar reprovador que dispensa quaisquer palavras e congela novas investidas. Nesse momento, irrompe pela casa o “novo-rico”, como o batizou o falecido. Trata-se do João Fazenda, o empreiteiro que comprou metade das terras em redor.

- Dá-me um tinto! – pediu ele sem qualquer saudação aos presentes, que parecem ignorá-lo.

A dona do estabelecimento acede ao pedido, mas pressente que a razão que o trouxe ali estará longe da inocência da restante clientela. Há um bom par de anos que insiste em comprar o terreno onde prospera o laranjal de Gracinda. As ofertas até já atingiram cifras generosas, mas há legados e “piquenos” tesouros que, para ela, não se vendem. Além do mais, tinha feito um pacto com o marido de que nenhum dos dois aceitaria prescindir da primeira terra que lograram comprar com as suas primeiras economias. E não vai ser ela a quebrar o acordo.

- Sabes Gracinda – começa, acanhado, o homem – venho ver se já pensaste bem na última proposta que te fiz…

- Já sabes a minha resposta. Não voltemos a essa conversa. – propõe ela com a intenção de ali matar o assunto.

 - Arre, mulher! Não percebo esse teu orgulho. Não estás a ir para nova e este dinheiro era suficiente para te der uma velhice d’ouro, sem canseiras. Pensa bem. – insiste, num tom de rogo mais amansado.

Gracinda não quer prescindir da sua intimidade. Não vai revelar as razões que a manterão fiel depositária da promessa combinada com a sua alma gémea. No meio daquele sentimento de urgência, própria de quem quer apagar o fogo daquela insistência, a viúva decide refugiar-se no conhecimento que tem das laranjas para saciar a teimosia de João Fazenda.

- Ó João – inicia ela a operação com que pretende encerrar o assunto – as laranjas dão-me muito dinheiro. Há muita gente a comprar. É uma fruta que agrada a toda a gente, ao rico e ao pobre. E sabes porquê?!

-

- Nesta altura do ano, ataca as gripes e constipações. No verão, ajuda as senhoras a manter o peso para não perderem a elegância. E não te esqueças que ataca o reumatismo e a gota. O doutor Agostinho já me disse que fortalece os ossos, os dentes e faz bem às gengivas. Fica tu sabendo que as pessoas que comem laranja estão mais protegidas das inflamações e de alguns cancros. Até as feridas cicatrizam mais depressa!

O persistente empreiteiro parece, por ora, vencido pelos argumentos que o próprio desconhecia. Inclusivamente, momentos houve em que pensou dedicar-se ao comércio das laranjas. Ainda que momentaneamente embriagado com tanta informação, aproveita para dar um derradeiro gole na tigela para de seguida concluir:

- Já estou a ver que hoje não estás virada para esta conversa. Tenho de ir.

- Vai lá. Não te esqueças: come laranja que até conserva a mocidade. – interpõe a taverneira.   

- Até amanhã. Vou ver se durmo, pois, há dias que passo as noites em claro… – lamentou-se dirigindo-se para a saída.

- Não digas?! Uma colher de flor de laranja numa xícara de água quente mata essa insónia… - garante ela com um sorriso matreiro, carregado de ironia.

José Manuel Alho

Petição "Pela qualificação da Profissão Docente como de desgaste rápido"

23.01.24 | Servido por José Manuel Alho

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"A Profissão Docente é cada vez mais uma atividade de enorme desgaste físico, psicológico e emocional e agrava-se com o avançar dos anos de serviço e a idade dos educadores de infância e dos professores, tendo, inclusive sido considerada, em 1981, pela Organização Internacional do Trabalho como uma profissão de risco físico e mental.

Para além disso, é uma das mais expostas a ambientes conflituosos e de alta exigência de trabalho, pois sofre diferentes tipos de pressão, que são originados por várias razões, entre elas: os alunos, através da sua baixa motivação e pelos comportamentos de indisciplina; a própria natureza do trabalho que exige compromisso temporal, excesso de tarefas e constante mudança de nível escolar; pelas relações estabelecidas com os colegas e a organização escolar, que passa por conflitos profissionais, baixo apoio social e a avaliação por parte da direção da escola e/ou ministério.

Estatisticamente, mais de 60% dos docentes portugueses sofrem de burnout, devido a fatores como a excessiva burocracia, a indisciplina e a sensação de não conseguirem acompanhar os alunos individualmente - o burnout, ou síndrome de esgotamento profissional, é um tipo específico de stress ocupacional provocado pelo trabalho, caracterizando-se pela exaustão emocional, diminuição do envolvimento pessoal no trabalho e redução do sentimento de realização pessoal.

O ensino em Portugal tem sido alvo de grandes desafios devido às transformações sociais, políticas e económicas bastante rápidas e acentuadas. Segundo o relatório de Eurydice (2021), Portugal apresenta-se em primeiro lugar no ranking de stress no local de trabalho e estatisticamente, 90% dos docentes queixam-se de algum tipo de stress e ainda, na categoria de “muito stress”, Portugal tem mais do dobro dos relatos da União Europeia (16% UE vs. 35% Portugal) - (Fonte: https://www.trofasaude.pt/artigos/o-burnout-em-professores/).

Os professores e educadores ainda não beneficiam de um regime especial de reforma, mas o seu envelhecimento e o desgaste da profissão motivaram já várias petições para antecipar a idade de aposentação para os 60 anos. Contudo, ainda nada conseguiram!
Neste momento, os docentes terão de se cingir às regras gerais de acesso à pensão de velhice aos 66 anos e sete meses, tornando esta profissão nada atrativa para as novas gerações.
Para além disso, o fosso de idade entre professores/educadores e alunos torna-se tão grande, que é praticamente impossível motivar alunos de 3/4 anos quando se tem 60, o que gera ainda mais desmotivação e indisciplina nos alunos.

As profissões de desgaste rápido, que têm condições diferenciadas de acesso à reforma, surgem no Artigo 27º do Decreto-Lei n.º82-E/2014, no Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares (CIRS). Conforme descrito no artigo, “consideram-se profissões de desgaste rápido as de praticantes desportivos, definidos como tal no competente diploma regulamentar, as de mineiros e as de pescadores.
Contudo, para além das profissões identificadas na lei, existe uma lista de profissões que tem direito a reformar-se mais cedo do que as demais e sem qualquer tipo de penalizações.
Certas profissões consideradas de desgaste rápido, têm condições diferentes de acesso à pensão de velhice. Ou seja, profissões como mineiros, trabalhadores marítimos, profissionais de pesca, controladores de tráfego aéreo, bailarinos, trabalhadores portuários ou as bordadeiras da Madeira fazem parte da lista de quem pode requerer a reforma antes da idade legal para a mesma, desde que tenham descontado durante 15 anos, seguidos ou não. (Fonte: https://www.e-konomista.pt/profissoes-de-desgaste-rapido/)

MAS, na lista de profissões que a Segurança Social elenca como sendo de desgaste rápido NÃO FIGURA A DE DOCENTE!

Os docentes estão envelhecidos, cansados e desmotivados. Valorizar a profissão é urgente não só com palavras, mas com atos. Esta petição surge assim com o intuito de valorização da Profissão Docente.

PELA QUALIFICAÇÃO DA PROFISSÃO DOCENTE DE DESGASTE RÁPIDO E PELA DIMINUIÇÃO NA IDADE DA REFORMA!"

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As eleições de 10 de março - a Educação entre o deserto e a desesperança.

08.01.24 | Servido por José Manuel Alho

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Começa a conhecer-se o essencial do pensamento dos partidos políticos para o setor da Educação. 
As primeiras amostras, polvilhadas com sinais que importa valorizar, são inquietantes. Como já aqui defendi, os partidos estão esvaziados de quadros que tragam efetivas mais-valias à comunidade. Aliás, no caso concreto do Ensino, foram os partidos que, numa pífia deriva populista, se concentraram, desde o início deste século, em degradar a imagem e o prestígio sociais dos professores, afirmando ódios e reservas mentais que alguns ainda terão por resolver. 
 
Cumulativamente, tem subsistido uma lógica experimentalista, sem fim à vista, que tem denegado previsibilidade e rotina aos alunos, aos professores e às famílias.
 
Ademais, parece que a balança de poderes e influências se encontra perversamente desequilibrada, como se os docentes estivessem condenados à infelicidade e à infâmia de ocuparem a cauda do cometa educativo.
 
A Escola Pública depauperada e negligenciada, tem sido o alvo das principais forças partidárias que, em circunstância alguma, elegeram  a Educação como prioridade, exceção feita a alguns arremedos assistencialistas que, no essencial transformaram o setor em mais uma secção da Santa Casa da Misericórdia, vocacionada para o tratamento e sustento de todos os males que o poder central não sabe ou não quer resolver.
 
Nunca o bom senso foi tão escasso e reclamado em favor da pacificação de um área tão crucial para o devir das futuras gerações. Os professores, reafirmo, devem ser tratados como recursos HUMANOS, que carecem de motivação e de reconhecimento porque não falta quem os desvalorize. Não são máquinas nem peças da engrenagem desprovidas de emoções e de sentimentos. Mais do que nunca, os docentes, sem o amparo da tutela e já sem a retaguarda de sindicatos outrora influentes, precisam de carinho.
 
Mergulhados em burrocracias iníquas, que os impedem de levantar a cabeça para perceber o que se passa ao redor, os professores quase que são obrigados a concluir que o direito ao descanso inexistirá, agora que o "dever de não incomodar” foi justamente plasmado no Código do Trabalho Português, recaindo sobre os empregadores, no sentido de salvaguardar as condições para a recuperação física e mental através de um descanso efetivo dos seus trabalhadores.
 
Mais do que nunca, cumpre ter memória para colocar as perguntas certas a quem, em vésperas de eleições, se propõe guiar os destinos do país. E, por exemplo, exigir que a palavra dada seja (mesmo) honrada.
 

Da moção de Pedro Nuno Santos

"É preciso investir na carreira, sobretudo no seu início, e voltar a negociar com as associações representantes dos professores as regras relativas ao tempo de serviço; rever e simplificar as
regras de colocação; continuar a investir em condições para incentivar os professores a concorrerem para zonas mais necessitadas e desburocratizar a função docente. Entendemos haver utilidade em revisitar o modelo de gestão das escolas, no sentido de aprofundar a democratização dos modelos, sem prejuízo do processo de descentralização."
Por ter sido ontem e por dizer respeito ao partido com prolongadas responsabilidades governativas nas últimas décadas, socorro-me do que se lê na moção do agora candidato a Primeiro-Ministro, Pedro Nuno Santos (PNS).
 
Desde logo, preocupou-me o facto de Alexandra Leitão, que coordenou a moção de PNS, ter sido alguém cuja ação governativa - embora tenha agradado a uma casta mais autoritária de diretores escolares - tenha sido de muito má memória para os professores que, diariamente, no terreno, davam o corpo ao manifesto para preservar a Escola Pública. Em muitos assuntos relacionados com o quotidiano dos zecos, é minha opinião que revelou ter a sensibilidade de um trator e a eficiência de uma cigarra. Pareceu-me que lhe faltou competência(s) para (ajudar a) reformar, regenerar e reabilitar quando, na verdade, já naquela altura se imporia um rompimento com o passado. O setor rogava - e roga! - por governantes que venham do terreno, com noções muito claras do que, realmente, é crucial, decisivo e estruturante. O meio estava - e está - saturado de (pseudo)reformas de nomenclatura, gizadas no e para o domínio do etéreo. Simplesmente, finou-se a pachorra.
 
De seguida, chocou-me que, no meio desta atmosfera, há anos pautada pelo desencanto e pela desconfiança:
- não se priorize (nem se leia!) dignificar, prestigiar e valorizar os professores;
- não se assuma o imperativo de corrigir o atual modelo de Avaliação do Desempenho Docente (ADD), extirpando, entre outros, os garrotes que sobre ela impendem;
- não se defenda, preto no branco, a justiça de devolver o tempo de serviço já efetivamente prestado pelos professores, preferindo-se aludir a coisa diferente quando se escreve "negociar com as associações representantes dos professores as regras relativas ao tempo de serviço";
- se insinue que o investimento nos primeiros escalões da carreira docente se fará à custa do sacrifício, por via de cortes salariais, nos vencimentos de quem, hoje, se encontra (ou se apresta para progredir) nos 7.º. 8.º, 9.º e 10.º escalões até porque, ao contrário do que foi dito para a carreira médica, o PS não defende, nem propõe, a valorização da carreira dos professores. Estaremos perante uma habilidade linguística e financeira, assente no aplanamento dos salários, virando os mais novos contra os mais velhos?
 
Uma vez mais, parece que o desígnio continuará a não ser o de proteger a Escola Pública, mas o de normalizar o seu empobrecimento. Neste particular,  estou à vontade até porque, em tempos, concedi o benefício da dúvida.
 
Apesar deste deserto de ideias transformadoras e da profunda desesperança, caberá aos cidadãos, que prezam e pugnam por uma educação pública de qualidade, mormente os docentes, decidir, com o seu voto, que futuro assegurar para as nossas crianças e jovens. 

Crónicas com tradição (I) - Portugal, o país das laranjas.

03.01.24 | Servido por José Manuel Alho

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Diogo brincava numa das ruas de Alte, freguesia de Loulé, no Algarve, naquele início de tarde acariciado por um sol abundante, que mais parecia uma bênção ao novo ano acabadinho de inaugurar. Embrenhado num imaginário que só ele domina, qual rei de uma terra ainda por conhecer, sentia-se experimentar o mistério escondido em cada brinquedo deixado naquela enrugada bota, estrategicamente amparada por mais um assombroso pinheiro que apenas o avô logra desencantar.

Apesar de sentir-se longe do bulício de uma destas cidades que nunca dorme, o seu grande palco durante o resto do ano, Diogo, mais do que estranhamente adaptado à ausência temporária dos amigos mais próximos, cúmplices incondicionais de aventuras mil, julga-se capaz de centrar um mundo inteiro naquela soleira onde só ele tece os destinos dos universos ali reunidos.

Num desses portentosos momentos, pressente a chegada do avô Ferreira. A passada constante e destemida da sua pasteleira, bicicleta impecavelmente mantida, não deixa dúvidas. As peças, as cores, os traços e o brilho dos cromados confirmam a chegada da única pessoa que alguma vez conheceu de mola na bainha direita das calças para a proteger da corrente bem oleada. Hoje, um saco de laranjas iria espoletar uma conversa inesperadamente reveladora.

- Ó rapaz, queres provar destas laranjas? – pergunta o avô naquele tom de voz que o parece reconhecer por igual.

- Já acabaram os chocolates?! – retorquiu o petiz sem disfarçar o desencanto inicial com a proposta.

- Diogo – chama o avô abrindo o saco das formosas laranjas – o que tenho aqui é mais importante do que possas pensar! – preveniu, enigmático, para logo se sentar no degrau da porta.

- Porquê? São feitas de ouro ou têm poderes mágicos?... – inquiriu Diogo, esperançado ao ponto de suspender as brincadeiras em curso.

O homem da pasteleira parece inspirar com a resolução de quem se apresta para contar uma daquelas histórias fascinantes, mas ainda desconhecidas.

- Ficas a saber que Portugal é o país das laranjas. Há quem diga que veio da Ásia, mas ainda hoje não se sabe ao certo. Na China já se falava da laranja dois mil anos antes do nascimento de Cristo!

 - Ui! Isso é bué de tempo…

- Bebé? Quem falou em bebé?! Toma é atenção ao que te digo para, quando chegares à tua escola, poderes contar à tua professora. Vai dar uma bela redação!

Diogo percebe que o avô não compreendeu aquela expressão que os meninos na cidade usam desde… que nasceram. Por isso, não interrompe.

- Li num daqueles almanaques deixados na taverna do Silvino – prossegue o mais velho – que a laranja veio das Américas para a Europa na altura dos Descobrimentos. Sabes, no tempo em que este país dava cartas… - complementou com indisfarçável frustração. Sem se deter:

- O Brasil chegou a ser o maior produtor de laranjas do mundo. Cultivam muita laranja. As laranjas têm lá muitos tamanhos, cores e sabores.

- Mas porque é que Portugal é o país das laranjas? Estás a falar do Brasil… - constatou, inquieto, o mais novo.

- Não tens paciência nenhuma! – responde acossado o avô para logo de seguida satisfazer a curiosidade do pequeno – A palavra “Portugal” pode ter outro significado em outros países. Em romeno, laranja diz-se portocálâ, em búlgaro portokal’, em grego portokáli e em turco portokal.

- Então, nesses países, nós somos laranjas?! – reage Diogo com espanto.

- E não é só na Europa. Na língua de países como o Irão ou o Afeganistão e falada em países como a Arménia, a Geórgia ou o Iraque, a palavra Portugal significa laranja. Lê-se: porteqal.

As revelações sucediam-se. O avô Ferreira parecia um especialista daqueles que falam nos telejornais. De perninhas à chinês, Diogo bebia cada novidade com a preocupação de não se esquecer de nada que pudesse tornar a tal redação verdadeiramente sensacional.

- Olha – avisou este avô ao mesmo tempo que se levantava sacudindo as calças – até te vou dizer mais: em árabe, uma língua falada em cerca de vinte países como o Egipto, a Líbia ou a Arábia Saudita, com quase trezentos milhões de pessoas, a palavra portugal lê-se: bortuqal ou burtuqálum e também quer dizer laranja! – sentenciou em beleza como quem remata um discurso feito por aqueles senhores da política antes das eleições.

Diogo estava atordoado. Decidiu sacar uma das laranjas oferecidas pelo avô e arrumou o seu mundo para dentro de casa. Estava decidido. A redação sobre a laranja tinha de ser feita. Ia arrasar quando a lesse em voz alta, na sala, para a turma. Tempo apenas para deixar um derradeiro alerta:

- Avô, tira a mola das calças!...

José Manuel Alho