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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

A influência do género nos estilos de liderança e governação dos autarcas portugueses

23.02.24 | Servido por José Manuel Alho

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Imagem freepik

Por Ana Beatriz Alho

A narrativa convencional tende a considerar que o sexo pode influenciar os estilos de liderança autárquicos (Carli, 1999; Carli & Eagly, 2001; Eagly & Chin, 2010; Eagly & Johnson, 1990; Inal, 2017; Kathlene, 1994; dos Santos & Antunes, 2013; Tilly & Gurin, 1992). Adicionalmente, estes diferentes estilos de liderança parecem gerar diferentes formas de encarar a governação autárquica, com os autarcas a poder revelar maior ou menos propensão para a abertura à participação de atores externos e, portanto, não eleitos. A investigação existente é, contudo, limitada pela existência de estudos de caso que, naturalmente, são influenciados pelos contextos históricos e institucionais em que a governação local decorre. Esta investigação pretende contribuir para a discussão sobre a relação entre sexo, traços de liderança e estilos de governação através de uma análise ao contexto português e aos autarcas eleitos e em exercício de funções entre 2021-2023. Assim, explora-se um caso em que apesar do alargamento da abrangência da lei da paridade, na sequência da revisão da lei em 2019 – que alarga a obrigatoriedade da aplicação da lei da paridade nas listas para diferentes órgãos autárquicos (assembleia municipal e assembleia de freguesia), assim como amplia a sua abrangência (obrigando a listas compostas por 40% de cada um dos sexos, em vez dos 33% anteriormente estabelecidos). Não obstante a representação das mulheres em posições de liderança é, ainda, muito limitada – nas eleições de 2021, apenas 9% dos Presidentes de Câmara eleitos foram mulheres, muito abaixo do registado nas eleições anteriores. Neste contexto, importa compreender se o sexo é uma variável que afeta os estilos de liderança e de governação. Empiricamente, o estudo recorre a um inquérito por questionário difundido pelos autarcas atualmente eleitos (1198 presidentes e vereadores). Os dados sugerem não existir qualquer relação estatisticamente significativa entre os traços de liderança e o sexo, embora destaque que diferentes estilos de liderança têm, de facto, efeito sobre os estilos de governação.

 

Crónicas com tradição (IV) - Foi você que nunca provou morcela de arroz?

21.02.24 | Servido por José Manuel Alho

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Imagem retirada daqui

 

Daniel, solteirão a caminho dos quarenta, vê-se ao espelho qual derradeira imagem para uma foto de perfil que possa, no mais ousado dos cenários por si engendrados, ser a de promoção de um filme em honra da morcela que tanto aprecia. Imune aos infindáveis trocadilhos oferecidos pelos ditames do enchido, engelha o sobrolho como quem fita uma qualquer candidata a alma gémea, aperaltando-se com o mesmo orgulho que assinalou a sua entronização como confrade da Morcela de Arroz da Alta Estremadura. São momentos de ingénua, mas intrépida glória.

Infelizmente, nem com essa promoção logrou pôr fim ao seu crescente degredo de macho por encaminhar, estigma que parece ser tema de conversa na pequena vila de Valado dos Frades, lá para os lados da Nazaré. Tem uma viagem pela frente. O Festival de Gastronomia de Leiria, com quase três centenas de comensais provenientes de outras confrarias, unidos pelo imperativo maior de honrarem a morcela que os anima – sejamos comedidos e deixemo-nos de pensamentos matreiros… - obriga-o a ensaiar uns quantos desbloqueadores de conversa que o ajudem em caso de emergência durante o festim que mais tarde decorrerá no Castelo de Leiria.

Daniel, “cioso membro da Confraria Gastronómica da Morcela de Arroz da Alta Estremadura”, assim se descreve na sua página do Facebook, está confiante e desta feita apruma-se com dois dedos de OldSpice, inequívoco sintoma de uma segurança inabalável.

Chegado ao destino, vê e revê o lugar por si ardilosamente conseguido para estacionar o Opel Corsa impecavelmente mantido desde 98. Ano louco aquele! Receia que, com o vento, o poste de iluminação possa ceder e atingir tão estimada viatura. Convicto que o pior não acontecerá, volta a confirmar se puxou o travão de mão e se a bagageira está mesmo trancada. Reencontra conhecidos que consigo partilharam a mesa em outras ocasiões. Saudações efusivas que o instigam a lembrar-se do nome daqueles com quem vai trocando palavras de circunstância. “Como se chama este gajo?...”, tortura-se insistentemente.

Ao longe, vislumbra o vulto de uma mulher que o deixa cativo. Em seu redor, tudo o mais parece ter deixado de existir. Os sentidos parecem estranhamente desligados para se concentrarem, como que por magia, naquele ser de olhar penetrante, com presença distinta e silhueta invejavelmente definida. Ao lado, alguém comenta: “o jornal da terra enviou para fazer a reportagem do Festival uma novata, que nunca provou morcela. Francamente. Haja respeito!”

Daniel sente-se impelido a entrar em missão. Não. Nunca sentiu apelos missionários, mas, “se é para bem da morcela - pensou ele para mascarar o seu instinto de marialva dobrado pelo instinto - digam que eu vou!” Impelido a honrar a morcela que há tanto faz por preservar – não voltemos a essas larachas, por favor! – caminhou resoluto rumo àquela mulher que ele pressente necessitar do seu conhecimento de experiência feito.

Sem as pieguices que a idade já não consente, este zeloso confrade, mais do que pedir desculpa por interromper a conversa até então em curso, atira secamente: “foi você que nunca provou morcela de arroz?”

Ela acena com um sorriso que confirma os piores receios de Daniel. O outro interlocutor, nitidamente atordoado com a manobra, abandona a cavaqueira e ficam a sós. Ele apresenta-se e disponibiliza-se para a iniciar no assunto que tanta gente para ali convocara. Inusitadamente agradada com a abordagem, Teresa concorda em deslocar-se para um canto mais reservado daquele endomingado salão.

Ela toca-o com a sua fragância que o deixa nos limites do desatino. Percorrido por um turbilhão ingovernável de pensamentos carnais, Daniel refugia-se na sua zona de conforto, dizendo-lhe que “tudo procede do ritual da matança do porco para fazer-se as morcelas, uma manifestação cultural que une saberes ancestrais.” Embalado, prossegue: “desde o chamuscar, a raspagem e lavagem do pelo, a pesagem, o retirar de tripas e versuras até ao desmanchar, tudo é festa.”

Não percebendo que Teresa está mais atenta ao que os seus olhos veem em detrimento dos ouvidos, opção que lhe permitiu constatar que ele não tem qualquer aliança ou vestígios de a ter ostentado no habilitado anelar, Daniel parece agora tomado pelo assunto que o leva a debitar ininterruptamente conhecimento enciclopédico:

- “Repare bem que estamos a falar de uma das iguarias mais características da Estremadura.
O sangue fresco do porco é condimentado com sal e pimenta e misturado com vinho tinto e vinagre. Junta-se carne entremeada de porco, cortada em partes miúdas, alho, cebola, salsa, cominhos e cravinhos e deixa-se marinar durante cerca de sete horas, mexendo de vez em quando é claro. O arroz, cozido à parte e escorrido, é então adicionado. Depois de muito bem lavadas e esfregadas com limão, enchem-se as tripas.
Podem ser servidas, após ligeiro cozimento em água caldeada, com sal, louro e cebola.” - afiança ele com o rigor de quem acaba de recitar uma bula medicamentosa.

Surpreendentemente aliciada por este imprevisto universo, ela permite-se, com premonitório arrojo, sugerir: “e se deixássemos esta agitação e aprofundássemos a matéria no restaurante d’”A Avó Alexandra” ao sabor de espetadas de Morcela de Arroz e Ananás com Feijão Preto?...”

Inexoravelmente arrebatado pelo repto da jornalista, Daniel entrega-se ao desafio com a inspiradora convicção de que se cumprira a profecia de a morcela, qual pêndulo divinatório, se ter alçado quando tocada por um destino enchido de ironia.

Um país inteiro a arrastar os pés na Educação

18.02.24 | Servido por José Manuel Alho

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Um país inteiro a arrastar os pés na Educação

 

As eleições legislativas de 10 de março já estiveram mais longe.

Com sonsa permissividade - até nestes detalhes se nota a falta de exigência coletiva - a comunicação social consentiu o início dos debates televisivos sem a divulgação prévia de todos os programas eleitorais.

O panorama não é animador. Parece que a maioria das forças partidárias, copiosamente encerradas sobre si mesmas, com poucos independentes, nada têm para oferecer que levante do chão um país a precisar de carinho e ânimo.

Na Educação, como aqui alertei, os partidos estão esvaziados de quadros que tragam ou signifiquem efetivas mais-valias para o futuro do setor. Tudo se resumirá a uma coleção de cromos ou a um punhado de especialistas de pacotilha, que nos últimos anos se dedicaram ao populismo ou à demagogia de quem se presta a patrocinar interesses (muito) pouco confessáveis.

Há quem proponha a devolução faseada, mas sem adiantar os seus exatos termos. Os professores não estão em condições de passar cheques em branco. Assim, a devolução, mais ou menos acelerada, não pode estar sujeita a qualquer condicionalismo. A devolução só deve ter uma consequência: o reposicionamento, sem outras condicionalidades acopladas. Ponto.

Vou arriscar uma "lapalissada" e prever que, para os professores portugueses, neste sufrágio de março de 2024, colocar-se-á uma de três possibilidades:

  1. não votar;
  2. votar branco ou nulo;
  3. votar no menos mau.

 

E, quando o eleitor se vê atirado para este leque de alternativas, somos obrigados a reconhecer que a (nossa) democracia está perigosamente em risco de se vulgarizar, abrindo alas a toda a sorte de extremismos.

Numa análise comparativa das propostas partidárias, percebe-se que a Educação já não é uma prioridade. Não se conhece uma força, com assento parlamentar, que coloque, como linha vermelha, a valorização da Educação. Até dos debates foi afastada. Nem sequer uma tão fogosa quanto passageira paixão. É tudo muito pobre, sem uma visão integrada que aporte a consistência de uma verdadeira estratégia mobilizadora.

Desde o início deste século, amontoaram-se, em Portugal, os ataques que os políticos, os partidos e muitos governantes desferiram contra a dignidade socioprofissional dos professores. A classe docente saiu deste processo fragilizada, depreciada e ferida no seu orgulho. Está (compreensivelmente) zangada e descrente. O mais desconcertante é que a elite política ainda não terá percebido este contexto, em que perdeu o estatuto de acusação para assumir o de réu. Mantém-se no limiar daquela soberba que antecede a insolência menosprezadora. Mesmo em tempo de eleições, não consegue encontrar mediadores que falem a linguagem do terreno, dos professores que, apesar de numerosos desmandos governativos, continua(ra)m a dar a cara e o melhor de si pela Escola Pública. Repito, o poder político precisa de recrutar quem fale a linguagem dos professores porque, deixemo-nos de tretas, não houve, não há nem haverá futuro para a Educação contra os professores.

Como em devido tempo antecipei, aconteceu a sul-americanização da carreira docente. Desvalorizada. Proletarizada. Empobrecida.

Daí que, para início de conversa, importe resolver, sem mais demoras, a questão da devolução do tempo de serviço. Sem isso, não teremos paz nas nossas escolas.

Há quem proponha a devolução faseada, mas sem adiantar os seus exatos termos. Os professores não estão em condições de passar cheques em branco. Assim, a devolução, mais ou menos acelerada, não pode estar sujeita a qualquer condicionalismo. A devolução só deve ter uma consequência: o reposicionamento, sem outras condicionalidades acopladas. Ponto.

Em complemento, cumprirá concatenar a resolução de outros dossiês prementes:

  • revisão do Regime Geral de Avaliação do Desempenho Docente, extirpando os garrotes das quotas e das vagas de acesso aos 5.º e 7.º escalões, que subvertem a progressão na carreira;
  • revisão do regime de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário, conferindo-lhe maior transparência, equilíbrio e, acima de tudo, democraticidade, apurando a lógica de checks and balances;
  • revisão do regime de monodocência, versando, em concreto, o racional vigente de fragmentação organizacional e de compartimentação institucional do 1.º Ciclo. Urge, por isso, reparar, compensando, o esbulho generalizado de que têm sido vítimas os monodocentes;
  • implementação de um robusto plano de desburocratização da ação docente, perseguindo, pela penalização, quem obstaculizar, ou torpedear, a simplificação que se impõe.

 

Esforço-me por ser um otimista bem informado. Por isso, não creio que a situação venha a conhecer melhorias substantivas. A aposentação (prevista) de milhares de professores, conjugada com o abandono de outros tantos, vai deixar as famílias e as futuras gerações num agonizante beco sem saída. Ao contrário dos médicos e de outras classes profissionais, igualmente vergastadas por políticas que promoveram uma descarada e brutal transferência de rendimentos do trabalho para os rendimentos do capital, no setor privado e no setor público, o poder de chantagem dos professores mede-se em gerações. E, com esta casta de políticos, a Educação estará condenada ao derradeiro sacrifício.

Temo que continuemos a ter um país inteiro a arrastar os pés na Educação.

José Manuel Alho

Do ponto a que chegámos.

16.02.24 | Servido por José Manuel Alho

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"Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida.

Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingénuos. Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência."

Cecília Meireles

SENTENÇA

14.02.24 | Servido por José Manuel Alho

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"Sê sóbrio,

E sorri das tonturas dos medíocres

Com dó e piedade.

Não descubras que existes:

Tem caridade."


Afonso Duarte
(Foto de Jelena Jovanović) 

Crónicas com tradição (III) - A Alheira de Mirandela contra ventos e marés

08.02.24 | Servido por José Manuel Alho

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Foto retirada daqui

De volta à quinta que serviu de palco à sua infância, em Bouça, Mirandela, cravada entre os miradouros de São Sebastião e do Senhor do Repouso, Humberto recorda, exaurido por uma saudade que lhe esgaça as entranhas, a sabedoria serena de seu pai, o «rijo de São Sebastião», assim celebrizado por ser o cabecilha da romaria que anualmente sempre fez por cumprir, afrontando ventos e marés.

Com pouco mais de sete centenas de habitantes, Bouça é o seu berço. Ainda puto curioso pelos inusitados encantos dos gaios, que sempre se sobrepuseram ao fascínio popular das mil e uma histórias, envolvendo javalis, coelhos, raposas, águias e falcões, perpetuadas pelos anciões tementes à Senhora da Assunção, a padroeira da freguesia, foi aquela relação de pertença, indisfarçavelmente telúrica, que sempre animou o desejo de ali voltar para honrar as suas raízes.

Um regresso precoce para acompanhar o pai na sua derradeira agonia. De relações cortadas por não suportar as incessantes pressões paternas para que assumisse a liderança da «Quinta d’Assunção», propriedade esmagadoramente infinita e singularizada pelos seus emblemáticos pinhais, cerejais, olivais, soutos e vinhas, Humberto chama à memória os passeios matinais sob o murmúrio alternado, mas puro das ribeiras do Codeçal, da Muralha e dos Bufos. O cheiro daquela terra devotamente revirada por gerações de antepassados, misturada com aquela humidade que tudo cobria qual manto luzidio é, afinal, uma pintura delicada e suavemente aclarada a pastel seco.

Por ironia de um destino que alguém escreve, o «rijo de São Sebastião», muito por culpa das mais de sete décadas de vida, sucumbira à percentagem marginal dos que se vergam ao Síndrome de Guillain-Barré. Tratou-se de uma inflamação que bloqueou a passagem do estímulo nervoso. Em recomendável economia de palavras, o cérebro dava a ordem, mas ela não chegava aos músculos. Com incapacidade muscular, mas com pouca ou nenhuma diminuição da sensibilidade, Humberto percebeu o degredo final do homem que aprendera a admirar com sábia discrição. Mesmo quando, num par de dias, a doença começou a subir e a tomar outros grupos musculares progredindo até à parte superior do corpo, afetando seriamente os músculos respiratórios e da face, deixando-o em dificuldade para respirar, engolir e manter as vias aéreas abertas, aquele vulto, outrora indomável, parecia balbuciar os rogos que nunca convenceram o descendente. Aprisionado ao seu próprio corpo, num esforço sobre-humano, ilustrando uma luta desigual contra a paralisia generalizada que até – pasme-se! – lhe retirou a capacidade de suar, o pai ameaçava esboçar raros movimentos que só uma alma animada por uma estranha missão lograria denunciar. A mensagem estava lá. «Eu vou. Mas tu ficas. Continua aqui!»

Volvidas três semanas sobre o doloroso transe, Humberto dá-se às coisas, aos espaços, aos objetos e, sentado na roçada cadeira do falecido, sancionando um fim de tarde aumentado pelas virtudes de fevereiro, lê atentamente os apontamentos de quem tudo registava com recurso a uma caligrafia cuidada, num itálico a fazer lembrar o rigor austero dos copistas. Nesta passagem, o novo dono da «Quinta d’Assunção» detém-se neste esclarecedor trecho sobre a Alheira de Mirandela, que fará por imortalizar pelas vias contemporâneas:

Foram os judeus que a inventaram como estratagema para fugirem às garras da Inquisição.
A religião deles não os deixava comer carne de porco. Como não tinham manha, eram muitas vezes descobertos por não fazerem nem fumarem os costumeiros enchidos de porco.
Por isso, trocavam a carne de porco por outras carnes - vitela, peru, coelho, galinha, pato e, por vezes, perdiz, enrolados por uma pasta de pão.
A receita até convenceu alguns cristãos, mas estes juntavam-lhe sempre carne de porco.
Nos dias que correm, as alheiras mais procuradas são as de Mirandela, mas já se fazem alheiras por toda a Beira Alta e Trás-os-Montes.
Não esquecer: as alheiras devem ser fritas em azeite e acompanhadas de legumes cozidos. Nada de modernices.