A melhor camuflagem

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela."
Max Frich
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"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela."
Max Frich

Vesperal
"E, contudo, é bonito
O entardecer.
A luz poente cai do céu vazio
Sobre o tecto macio
Da ramagem
E fica derramada em cada folha.
Imóvel, a paisagem
Parece adormecida
Nos olhos de quem olha.
A brisa leva o tempo
Sem destino."
Miguel Torga
in Antologia Poética
Sophia disse-o em 1975. Quase meio século depois, a frase continua a ser um grito de esperança e vergonha.

Quantas vezes deixamos escapar a dimensão invisível da vida do(s) outro(s)?
Cada pessoa carrega bagagens várias: escolhas difíceis, desistências que doeram, esperanças adiadas. A verdade é que, por norma, o silêncio grita mais alto do que mil palavras.
E mesmo assim seguimos, porque dentro de nós há mais força do que o mundo imagina.

"Tudo o que fazemos é marcado pela fragilidade da nossa condição.
Somos esta coisa humana,
provisória,
incerta,
inacabada,
imperfeita.
Mas somos também poeira enamorada.
Há em nós alguma coisa de maior.
Mesmo no erro.
No erro podemos encontrar um caminho. "
José Tolentino de Mendonça

Na praia vão de mão dada,
Sem se importar com o olhar,
Que importa a pança inchada,
Se há bikini para exibir no mar?
Ele, verde e rechonchudo,
Ela, cor-de-rosa e vaidosa,
Quem disse que o amor profundo
Não combina com pose glamourosa?
Seguem firmes, passo lento,
Ao som das ondas a bater,
Enquanto o vento e o momento
Fazem filtros desaparecer.
O mundo aplaude e comenta,
Entre risadas e tropeções,
Mas no fundo só se sustenta
Quem ri dos próprios padrões.
Que venham câmaras e selfies,
E mil olhos a espreitar,
Pois amar, com as formas que se tem,
É a melhor forma de desfilar.

Para quem (já) está de férias, esta matemática do verão à beira-mar ameaça contas antigas.
Podemos ter 250 em pé (talvez a tentar apanhar o melhor ângulo para aquela ousada selfie...), 150 sentados (a aproveitar, preguiçosamente, cada raio de sol), mas o verdadeiro luxo reside nos 50 "de molho". Parece que a prioridade é refrescar os pés. E quem somos nós para discordar? Afinal, com o calor, o estado "de molho" rapidamente se torna num objetivo pessoal e secreto, elevando-o à nossa lotação máxima de felicidade.

"Nunca nada é para sempre!
nem o choro
nem o sorriso
nem a raiva
e nem a mágoa
Talvez o amor!
talvez o amor seja para sempre
mas tem de viver nos olhos
e andar bem rente à pele
ser carne, nervo e osso."
São Reis

FOTO: HORACIO VILLALOBOS (Corbis via Getty Images) retirada daqui
Ontem, em reunião com os Diretores, o MECI apresentou um conjunto de medidas que pretende implementar no âmbito da preparação do Ano Letivo 2025/2026, conforme o divulgado no blog de Arlindo.
A verdade é que, a cada novo documento do Ministério da Educação, renova-se a esperança de mudanças substanciais. No entanto, quem está no terreno, como bem sabem os professores do 1.º Ciclo, sabe que a distância entre o PowerPoint e a vida real nas escolas tem tanto de abissal como de burocrático. Antes de aderirmos ao otimismo institucional, é preciso olhar, com clareza e alguma ironia, para o que está efetivamente em causa.
Novidades do PowerPoint:
O combate à burocracia: retórica ou realidade?
Muito se promete na suposta simplificação de processos, mas na prática:
Como bem refere a literatura especializada, "a burocracia educativa serve mais a produção de relatório do que a ação pedagógica" (Canário, 2006). O combate à burocracia não é só tecnológico; exige coragem política e humildade administrativa para confiar nos docentes.
Dúvidas e Desafios
Promessas e realidade: o combate à burocracia é a verdadeira Reforma
O plano apresentado pelo Ministério da Educação assume-se, à primeira vista, como um fôlego renovado na tentativa de aproximar as escolas do século XXI das exigências pedagógicas e sociais contemporâneas. Contudo, a promessa de inovação esbarra frequentemente na muralha da burocracia instalada, servindo a máquina administrativa mais à produção de relatórios do que à transformação efetiva das práticas letivas, conforme sublinha Canário (2006).
Para que as intenções se convertam em impacto real, é necessário um compromisso político autêntico: libertar os professores das garras do papelório e das plataformas desinspiradas, para que possam, de facto, ensinar com criatividade, presença e discernimento crítico. Reduzir a burocracia não pode ser manobra de cosmética digital; tem de ser ato de confiança, de respeito pela profissão docente e pela experiência acumulada nas salas de aula. Só assim conseguiremos devolver à Escola o seu papel humano: um espaço de aprendizagem partilhada, de crescimento e de sentido, onde o professor não é mero executor de tarefas administrativas, mas agente inspirador de cidadania ativa.
Se o plano falhar neste objetivo essencial, cairemos uma vez mais na armadilha dos ciclos reformistas sem memória, onde as promessas alimentam relatórios e PowerPoints, mas pouco transformam na vida real dos alunos e dos professores. O verdadeiro progresso passa por devolver tempo, liberdade e dignidade a quem educa. O verdadeiro progresso passa por confiar nas pessoas.

“Não quero ir. Ainda é cedo.
Que pressa é essa? Não pode ser.
Deixem-me estar porque hoje tenho
bastante nada para fazer.”
Álvaro Magalhães