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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Bico do Monte: onde a fé abraça a serra e o mar

Nossa Senhora do Socorro

17.08.25 | Servido por José Manuel Alho

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Foto com a assinatura "A.A.F."

Recomendo também a consulta do blog "Monte do Socorro"

Há lugares que, mais do que geográficos, são espirituais. O Bico do Monte, em Albergaria-a-Velha, é um desses espaços onde a devoção e a paisagem se unem numa só oração.

A festa de Nossa Senhora do Socorro, celebrada no terceiro domingo de agosto - amanhã será feriado municipal em Albergaria-a-Velha - remonta a tempos em que a fé era o amparo maior das comunidades agrícolas, vulneráveis às incertezas da natureza. A pequena capela, erguida no alto do monte, tornou-se ponto de peregrinação e símbolo de esperança, atraindo romeiros que subiam pela encosta não apenas para pedir graças, mas para contemplar um horizonte onde a serra e o mar dialogam.

Nesta tradição centenária, a religiosidade funde-se com o reencontro familiar e comunitário, transformando o Bico do Monte num verdadeiro altar ao ar livre, onde a paisagem é tão sagrada quanto a prece. É neste cenário, que parece pintado pelo próprio Criador, que o poema de António Correia d’Oliveira encontra terreno fértil para elevar a palavra à altura da fé.

Antes de mergulharmos nas palavras que António Correia d’Oliveira eternizou, convido o leitor a levantar os olhos para o horizonte do Bico do Monte. Apesar de votado a um esquecimento envergonhado, não é apenas um monte, nem apenas uma capela: é uma varanda sobre a alma do povo, onde a serra e o mar trocam confidências ao ouvido do vento. Quem ali chega, percebe que aquela paisagem não se vê apenas com os olhos, sente-se com a memória. E cada pedra, cada pinheiro, cada sopro de neblina parece segredar a mesma promessa: a de que a fé, quando se entranha, atravessa séculos.

Na poesia que se segue, o autor não descreve apenas um lugar, oferece-nos um retrato em que a natureza é altar, a luz é incenso e Nossa Senhora do Socorro é, simultaneamente, padroeira e guardiã deste “hospital” de almas portuguesas.

SENHORA DO SOCORRO

"Numa paisagem forte e excepcional,
Aonde cabe bem toda a beleza
Desta terra a que chamam Portugal
E eu chamo o coração da Natureza,

Nos primeiros arrancos em que a terra
Fugindo do mar, que é pesadelo de águas,
Torna de novo a si e se faz Serra,
E se revolta em pinheirais e fráguas,

E no alto dum serro, ao mar fronteiro,
Ante a montanha séria, foi erguida
A mais linda capela que um romeiro
Pode ver, na romagem desta vida:

Pode ver a encimar o airoso monte
Que do mar para a serra se encaminha,
Como deusa pagã que fosse à fonte
E levasse à cabeça a cantarinha…

Senhora do Socorro: à tua roda
Que verde devoção de pinheirais!
Os pinheirais que rezam, sabem toda
A Fé das grandes coisas imortais,

As verdes legiões que tu dominas
De toda a altura, e que parecem,
Não árvores agrestes, pequeninas
Roseiras que ajoelham, e florescem…

A um lado, ao sol, o mar, tão claro e ardente
(A névoa é o fumo duma onda a arder),
E o mar, que toca o céu, parece à gente
Que se ergue mais em si, para te ver.

Doutro lado, a montanha imensa e augusta,
A fortaleza altíssima de Deus
Nessa guerra de amor que à terra custa
Verde sangue que sobe e brada aos céus.

E em toda a imensidade azul e branca
A névoa e o sol que dão também batalha,
E são gritos de luz que o sol arranca,
E desmaios da névoa que se espalha…

Olhai! Olhai: O céu, a serra, o mar…
Aqui não há doenças nem fraquezas:
Todo o remédio está somente em olhar
Neste Hospital das almas Portuguesas."

António Correia d’Oliveira 

Aviso à navegação: pausa estratégica para mergulhos e outros horizontes

01.08.25 | Servido por José Manuel Alho

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Agosto chegou com a subtileza de um martelo pneumático em dia de penosa canícula. E, como qualquer alma sensata que ainda acredita no poder regenerador do ócio (e no direito constitucional ao descanso), também este escriba se retira temporariamente para lugar incerto — algures entre a espreguiçadeira e o lusco-fusco das marés.

Durante uns dias, o banquete ficará à mesa posta, mas sem novos pratos. Não é abandono, é marinar. Não é silêncio, é pausa reflexiva. Os temas continuarão a fermentar, os disparates a multiplicar-se, os pretextos para escrever a acumular-se. E eu, de bloco e caneta invisível (ou notas no telemóvel), registarei tudo — entre um mergulho e outro, entre um gelado e mais um par de livros a meio.

Voltarei em breve. Com fome. Com mais ironia, alguma lucidez e uma saudável pitada de indignação.

Até já. Boas férias (se for caso disso). E, se não for, que, pelo menos, haja sombra e água fresca.