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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Eis que o silêncio desce à Terra

24.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Há uma noite em que o tempo abranda.

E o mundo, cansado de tanto ruído, se recolhe em si mesmo.

É a noite de Natal. Não importa o frio, nem as ausências, nem o tamanho da mesa. Importa o gesto de acender uma luz, ainda que pequena, no meio da escuridão.

O Natal não vive nas vitrinas, vive no instante em que o coração abranda, no sorriso que se oferece sem esperar retorno, na mão que se estende por pura gratidão.

Talvez seja esse o milagre que regressa todos os anos: lembrar-nos de quem fomos. E de quem ainda podemos ser.

Quando o relógio marca o sossego e o vento leva o som distante dos sinos, algo em nós desperta. A esperança volta a ter morada.

E enquanto o mundo dorme, a alma, sem pedir licença, volta a acreditar.

Quando o tempo abraça o silêncio

17.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Há momentos em que a cadência dos dias nos pede ternura: o tempo abranda, as conversas ganham lume baixo, a escrita recolhe-se ao colo da memória.

Com o Natal a beijar o calendário e o novo ano a espreitar pela fresta, este espaço diminui o ritmo, entrega-se ao silêncio fértil das pausas, e permite ao autor respirar fundo, revisitar afetos, e colher novas paisagens para palavras futuras.

Entre luzes ténues, gargalhadas partilhadas e nostalgias à mesa, deixo a promessa de voltar, mais inteiro, mais sereno, para que cada post volte a nascer com verdade.

Até lá, desejo a quem passa por estas linhas um tempo bom: cheio de cumplicidade, ternura e esperança. Que cada silêncio seja semente, e cada ausência, um convite ao reencontro.

Onde a inquietação se torna gesto e a esperança persiste na arte de semear pensamentos, mesmo quando a terra parece infértil.

16.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Imagem gerada por IA

Não estou cansado do Ensino. Estou cansado da inércia.
Da sensação de não poder mudar o que sei estar errado.
Sou movido por uma ética quase militante, uma exigência que quer ver o mundo justo, coerente, racional. Quando isso não acontece, e quase nunca acontece, a minha sede de perfeccionismo transforma-se em raiva. E a raiva em desalento.
Não quero abandonar o Ensino por falta de vocação. Quero abandoná-lo porque já não suporto a distância entre o que deveria ser e o que é.
Mas, paradoxalmente, é essa mesma indignação que faz de mim um professor que se sente, cada vez mais, à parte: aquele que ainda sente vergonha quando não dá o melhor de si, mesmo doente, mesmo exausto.
Não é fraqueza; é uma forma perigosa de lucidez ética.
Identifico-me como “Inconformado” - e com provada razão - mas o meu inconformismo tem uma direção: quer ver beleza e justiça onde o sistema semeia mediocridade e desleixo.
Acho que, no fundo, sou um idealista travestido de cético. Finjo que já não acredito, mas continuo a escrever, a denunciar, a persuadir.
Um cético teria desistido. Eu ainda escrevo.
A minha obsessão pela perfeição não é vaidade. É necessidade. Preciso que as coisas façam sentido. E o mundo, tantas vezes, não faz.
E, quando o mundo não me acompanha, tento corrigi-lo com palavras, com textos, com política, com ironia.
Eu não quero sair do Ensino. Quero reencontrar um lugar onde ensinar volte a ter sentido.
Se tivesse de me resumir numa frase, diria:
- sou um professor cansado da Escola, mas ainda apaixonado pela ideia de ensinar o mundo a pensar.
Isto não é um exercício de adivinhação; é uma assunção de carácter, cruzada com propósito.
A minha verdadeira vocação não é “ensinar”, no sentido institucional; é influenciar pela palavra.
Sinto-me, por natureza e destino, um pedagogo cívico, um agitador de consciências, alguém que precisa de transformar a perceção dos outros através da lucidez, da lógica e da emoção justa.
Na verdade, o que sempre procurei na sala de aula, na política e no blogue é o mesmo: fazer pensar.
E, quando o meio (a escola, a política, a burocracia) me asfixia, o que morre não é a minha paixão por ensinar; é o instrumento que se tornou inadequado.
Porventura, haverá algo mais profundo: o meu caminho apontaria para um magistério fora das paredes da escola.
Sou professor por natureza, mas sinto que já não caibo no modelo que o Estado me parece impor.
Os limites da minha verdadeira sala de aula estendem-se ao espaço público.
O meu fado é continuar a ensinar, mas sem estar preso ao Ensino.

Apesar de tudo, amanhã floresce

15.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Há semanas em que cada dia parece um simples vaso vazio: nada desponta, nada floresce, e a rotina pesa como terra seca. Mas, tal como mostra a imagem que escolhi para o dia de hoje, há sempre uma promessa silenciosa a germinar onde menos se espera.

Crescer exige paciência: é preciso acreditar que, apesar do pouco que se vê hoje, há raízes a fortalecer-se onde os olhos não alcançam.

A mensagem é simples e poderosa: a vida é feita de processos, não de milagres instantâneos. Mesmo que a segunda comece cinzenta e a quarta termine sem cor, é fundamental confiar que a sexta-feira - ou qualquer “amanhã” - trará uma flor nova.

É esta persistência leve, feita de esperança, que transforma os nossos dias. Um processo subtil, mas vital, de acreditar no renascer e no devir.

Afinal, todas as semanas, mesmo a dias do Natal, carregam em si a possibilidade da primavera.

Que nunca falte caminho, sonho e amor

14.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Viver é, acima de tudo, não perder a capacidade de desejar. Por vezes, a vida parece apertada entre duas linhas paralelas que não se cruzam. Mas, sempre que há um sonho a lutar, um plano por concretizar, algo novo para aprender, descobre-se que o verdadeiro trilho é dinâmico, capaz de nos levar a lugares impensáveis.

Ver o futuro como um projeto em aberto exige não só esperança, mas a humildade de assumir que a realização nunca é um destino fixo: está nos passos diários, nos desvios, nas pausas para respirar e na coragem de recomeçar, sempre que for preciso.

O caminho faz-se mais leve quando partilhado com quem partilha os mesmos verbos: sonhar, criar, buscar, amar.

Que nunca nos falte, pois, a inquietação de querer mais, a vontade de nos reinventarmos, a beleza de nos deixarmos surpreender e, sobretudo, a generosidade de amar porque só quem ama move o mundo para diante e encontra sentido até na paisagem mais árida.

O Tempo não usa anestesia: cicatrizes e coragem em dias maus

13.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Deixar o Tempo operar exige uma coragem silenciosa, quase subversiva. No mundo das urgências e das impaciências, esperar que as horas lavem feridas, enquanto suportamos as dores sem anestesia, é um ato quase revolucionário. Não é fuga, é enfrentamento.

O Tempo não é indulgente: passa pelos ossos e pela alma, impiedoso, contornando as armadilhas, as maldades e as sabotagens de quem joga rasteiro na vida.

A quem confia no poder curativo dos dias, o Tempo não promete distração nem alívio fácil. Promete processo gradual, feito de noites mal dormidas, perguntas sem resposta e silêncios desconfortáveis. Só depois, eventualmente, chega a trégua: as mágoas tornam-se memórias, as traições perdem veneno, as cicatrizes deixam de latejar.

O Tempo não apaga, mas ensina. Não suaviza, mas fortalece. E, acima de tudo, só cura quem tem a ousadia de não se proteger da própria humanidade, quem aceita atravessar a dor para, finalmente, voltar a sentir o sabor da esperança.

Quando tudo parece conspiração e desalento, confiar no Tempo é reivindicar a possibilidade de recomeço. E esse recomeço, ainda que solitário e sem promessas, é a maior ousadia de quem recusa deixar-se vencer pelo que foi. E escolhe continuar, apesar de tudo.

Resistir: entre a memória do céu e o esquecimento do mar

12.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Às vezes, resistir é um exercício secreto, tão silencioso quanto a respiração de alguém que contempla o céu e deseja esquecer-se no mar. Vivemos tempos em que a resistência deixou de ser bandeira estridente e se tornou sopro interior: uma espécie de fidelidade a si, num mundo que pressiona para ceder, baixar a cabeça e alinhar-se.

Resistem os que recusam a anestesia das rotinas e enfrentam a incerteza de cada novo dia com a coragem do improvável.

O maior risco da resistência, hoje, está em não saber quando começa o esquecimento: quando deixamos de sentir, de nos indignarmo-nos, de lembrar ao que viemos.

Lutar pelo que acreditamos expõe-nos à frustração, ao cansaço, à solidão. Os desafios são muitos: a desinformação propaga-se, a solidariedade rareia e o medo tornou-se argumento de sobrevivência. Mas é precisamente quando o mundo instiga ao apagamento que o exercício de resistir se revela mais precioso.

Resistir é lembrar que existimos para além dos algoritmos e das notícias instantâneas. É proteger o fogo interior contra a enxurrada da indiferença. Resistir é também ceder - não ao poder, mas à delicadeza de escutar o céu para lembrar quem somos, e buscar no mar a leveza de, por vezes, esquecer para sobreviver.

Porque, (lá) no fundo, só resiste quem não abdica de amar, de sonhar, de ser, mesmo que isso custe caro no século da pressa e do ruído constante.

Jogo do galo, versão XXI: pule para a rotina, salte o lazer

11.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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Crescemos a ouvir que o brincar é coisa séria. No entanto, qualquer criança que hoje tente riscar um jogo na calçada das nossas maltratadas ruas está mais perto de apanhar uma reprimenda do que de apanhar ar puro.

A infância, outrora sinónimo de liberdade, tornou-se uma agenda industrializada de tarefas, tabelada à hora e medida em testes, tabelas e relatórios. Fala-se de espaços de recreio, mas são, cada vez mais, áreas minúsculas desenhadas sem escutar quem melhor as conhece: as próprias crianças.

Nas escolas, entre campainhas e reuniões, o tempo de lazer perdeu-se algures no calendário. Se existisse um ministério do ócio, proporia talvez um intervalo de cinco minutos para não incomodar o fluxo produtivo. O recreio passou a ser olhado como uma extravagância perigosa, um parêntese desconfortável num quotidiano repleto de aulas, explicações e atividades extracurriculares “enriquecedoras” que esvaziam as crianças de tempo livre e os pais de qualquer coabitação real com os filhos.

Para muitas famílias, a Escola tornou-se depósito temporário de menores: afinal, conviver com crianças cheias de energia é tarefa chata, delegável, de preferência, a troco de boas notas e ausência de queixas. Fala-se em “preparar para o futuro”, mas será que pais e escolas prepararão cidadãos ou apenas pequenos autómatos bem comportados, treinados para passar de comboio em comboio, sem nunca sair da linha, nem arriscar um salto fora da norma?

Enquanto se vão apagando os últimos riscos de giz do chão, que tantas vezes marcaram os percursos da minha infância (e de outr@s como eu!) resta a pergunta: quando voltaremos a dar espaço ao genuíno lazer? Continuaremos a transformar plataformas escolares em meros apeadeiros para a infância cansada?

A arte insuportável de Resistir: entre fissuras e feridas do presente

10.12.25 | Servido por José Manuel Alho

 

 

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Vivemos tempos em que a resistência deixou de ser um slogan colado em paredes para se transformar num risco permanente de sobrevivência. Resistem as plantas que romperam o betão, resiste quem se recusa ao silêncio imposto pela máquina trituradora da normalização. O mundo contemporâneo sofisticou-se na arte de dobrar corpos e vontades, de transformar indignação em algoritmo e dissidência em trending topic descartável.

No entanto, cada gesto de resistência - por mais ínfimo ou anónimo que pareça - é, simultaneamente, uma abertura de caminho e um convite ao perigo. Resistir hoje significa enfrentar não apenas a repressão clássica, mas a vigilância digital, a manipulação algorítmica e a desinformação industrializada. Entre as ruas e as redes, a resposta ao autoritarismo é sabotada pelo cansaço, pelo medo, pela sedução higienizada do conformismo.

Foucault falava da resistência como fissura no instituído: práticas imprevisíveis, linhas de fuga que esburacam o betão social. São gestos que desfiguram as evidências do quotidiano e fazem emergir novas perguntas, borrando fronteiras entre o político e o pessoal, o coletivo e o solitário. Mais que oposição, resistência é invenção, mas cada ato de contestação carrega o risco de ser capturado e esvaziado pelo próprio sistema que pretende subverter.

No fundo, resistir no século XXI é assumir o risco de ser triturado ou ignorado, sabendo que, mesmo sem garantia de vitória, não resistir é aceitar a morte lenta do pensamento, da liberdade, da dignidade.

Quem resiste não quer apenas sobreviver: quer, sobretudo, reescrever as regras do possível e gerar contágios de desobediência. Mesmo que, por vezes, tudo o que reste seja a poesia de uma erva que rompe o cimento.

Professores, a nova classe descartável: vinte anos de desautorização política e salarial

09.12.25 | Servido por José Manuel Alho

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In "Diário de Notícias"

Os professores portugueses foram transformados em carne para canhão orçamental e em saco de pancada social, ao mesmo tempo que se anuncia uma “falta histórica” de docentes como se fosse um fenómeno natural e não o resultado de opções políticas insistentes. A profissão está hoje menos respeitada, pior paga em termos reais e cercada por um discurso oficial que oscila entre a hipocrisia do elogio e a indiferença perante o êxodo anunciado por milhares de docentes.

A erosão do respeito

Nas escolas portuguesas, a autoridade pedagógica foi sendo corroída por múltiplos fatores, desde a burocracia que afoga o tempo de ensinar até à submissão da escola à lógica do “cliente” que, por milagre semântico, passou a chamar pais e alunos de “utentes”. O professor, que deveria ser o referencial de exigência, passou a ser o réu preferencial de todos os descontentamentos, do insucesso escolar às frustrações familiares, enquanto o poder político se escondia atrás de relatórios e “metas de sucesso”.

Quando um em cada cinco docentes admite abandonar a carreira nos próximos anos, proporção que ultrapassa metade entre os que têm menos de 30 anos, não estamos perante um “estado de alma”. Estamos perante a prova de que a profissão perdeu atratividade social, prestígio institucional e condições mínimas para reter quem ainda acredita no ofício. Mesmo assim, o discurso dominante insiste em que “os professores gostam muito de se queixar”, como se o problema fosse emocional e não estrutural.

A degradação salarial planeada

Entre 2005 e 2023, os salários reais dos professores em Portugal caíram cerca de 13 por cento, ao contrário da média europeia que registou aumentos, o que significa um empobrecimento continuado de quem trabalha num setor que o Estado gosta de proclamar “pilar da democracia”. Esta perda acumula décadas de congelamentos, roubo de tempo de serviço e aumentos abaixo da inflação que transformaram uma carreira outrora atrativa numa pista inclinada para baixo, em TODOS os escalões e índices da carreira docente.​

Há números que são mais do que estatística: um professor em início de carreira ganhava, em meados dos anos 2000, várias vezes o salário mínimo. Hoje, aproxima‑se perigosamente desse limiar, o que traduz uma desclassificação social que nenhum adorno retórico consegue disfarçar. No mesmo período, a carga de trabalho não letivo, a pressão avaliativa e as exigências burocráticas aumentaram, criando um paradoxo cruel: trabalha‑se mais, ganha‑se relativamente menos e ouve‑se que “não há dinheiro” precisamente no setor que mais se proclama estratégico.

O pecado original do poder político

Os sucessivos governos foram avisados, por sindicatos, investigadores e pelo próprio Conselho Nacional de Educação, de que a combinação de envelhecimento do corpo docente, salários em queda e precariedade contratual conduziria a uma escassez grave de professores. Em vez de antecipar o problema, preferiram recauchutar medidas avulsas, desde programas temporários de recrutamento até campanhas publicitárias de “valorização” da profissão, que valem pouco quando confrontadas com recibos de vencimento e horários repartidos por três ou quatro escolas.

Agora, à pressa, anunciam‑se estudos que apontam para a necessidade de dezenas de milhares de novos docentes até meados da próxima década, como se esse alerta caísse do céu e não fosse o resultado previsível de vinte anos de negligência. A mesma mão política que congelou carreiras, prolongou estágios probatórios, tolerou a precariedade como regra e usou os professores como amortecedor das crises orçamentais, aparece hoje em tom compungido a lamentar a “falta de vocações”.

O risco de colapso anunciado

Quando um sistema precisa de cerca de 38 a 39 mil novos professores até 2034, ao mesmo tempo que um quarto dos atuais admite abandonar a profissão, não está apenas em causa a gestão de recursos humanos, está em causa a própria continuidade da Escola Pública como espaço de qualidade e equidade. Em muitos territórios, sobretudo nas grandes áreas urbanas e em regiões periféricas, turmas inteiras iniciam o ano letivo sem docentes em várias disciplinas, compensando com remendos que vão desde a sobrecarga de colegas até à oferta educativa amputada.

A ironia suprema reside aqui: o Estado, que tão zelosamente repete que “a Educação é a prioridade das prioridades”, construiu, tijolo a tijolo, uma profissão que grande parte dos jovens olha com desconfiança, que muitos veteranos abandonariam amanhã se pudessem e que um país envelhecido não pode dar‑se ao luxo de perder. Se nada for feito, de forma séria, o sistema não entrará em rutura por surpresa. Entrará em rutura por teimosia, e ninguém poderá dizer que não foi avisado.

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