Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Crónicas com tradição (VI) - Que futuro? Com ou sem legumes?

21.03.24 | Servido por José Manuel Alho

9.jpg

Imagem freepik

Agasalhada por um sol que afaga e protege, Inês percorre as páginas mais recentes da sua vida como quem já não precisa de metáforas ou demais eufemismos para aceitar que, desta feita, as circunstâncias parecem ter superado a sua até então insubmissa vontade.

Exilada na rudeza do molhe cúmplice de outras marés, de tão enriquecedoras mutações, a sombra projetada por uma luz que não conhece enquadramentos de conveniência sanciona a gravidade do momento: de ombros caídos e com os cotovelos ancorados nas pernas, é com o olhar firmado no infinito azul de um horizonte providencialmente sereno que se entrega à autenticidade dos sentimentos que lhe percorrem a alma.

Está cansada. Um esgotamento físico confirmado por uma exaustão anímica que há muito lhe embaraça os movimentos e até o pensamento. O zunido agreste de um vento que não conhece esquinas liberta-lhe os cabelos que se amarram a um rosto cerífico. Empedernida, é o mar que sublima o impacto deste capítulo nunca vivido. Na solidão dos seus pensamentos ondulantes, entrega-se aos perigos de um recolhimento sem destino. O leme outrora racional foi abandonado para que os ventos da emoção ditem, sem fundamento ou intenção aparentes, novos rumos onde fundeie esta desgovernada frota de sentimentos soprados por ventos contrários.

Casada há meia década com Fábio, com quem partilha a paixão por uma cozinha verde, pensada e servida para ser consumida pelas massas, desde cedo enfrentou a oposição cega e militante da sogra, a toda-poderosa Constança. Sim. Poderosa. Foi do seu porto, que nunca conheceu valias inferiores a nove dígitos, que veio o financiamento para tanto arrojo. A contragosto, que tantas vezes assinalou com laivos de praga lançada à jovem tripulação, lá disponibilizou a maquia tão reclamada pelo filho único que trata com desmesurada proximidade maternal. Na viuvez, à falta de melhor estímulo, parece ter encontrado a motivação a que se entregou com intrépida determinação missionária: ser mãe.

Desenganem-se os corações mais clementes, pois esta missão, a que se amarrou com tonto desvelo, não conhece oceanos e continentes. O jovem casal há muito que poderá comparar-se a um par de marinheiros enclausurado numa opressiva nau de guerra em tempo de abastada bonança. De que lhes vale o mundo se os limites se finam às águas que envolvem aquela embarcação sem permissão para desamarrar?

Inês nunca foi tratada pelo seu nome próprio. Inexplicavelmente entregue ao pronome (im)pessoal que a identificou como sendo “ela”, aceitou tão soez desconsideração com a sincera esperança de um dia, à custa de muita paciência e humildade, lograr impor-se pelo mérito e acerto da sua conduta. Nada disso. A realidade rapidamente se encarregou de desfazer quaisquer veleidades. “Ela” veio, entrou, mas jamais conhecerá a estima de ser “a Inês”.

Nos meses mais recentes, e a pretexto da crise que ainda não chega a todos, Constança tem espaçado cirurgicamente os seus financiamentos cuja necessidade se acentuou pela diminuição da clientela, obrigada também ela a precaver-se dos ataques de IVA e afins. Sentindo-se ainda mais crucial para a sobrevivência da atrevida empreitada de Fábio, tem aproveitado para em tudo se imiscuir. Se não é com o pessoal, é com as cortinas ou com as toalhas de mesa que só agora mereceram severos reparos. A cada dia, uma crítica quase sob a forma de condição para nova e suada “contribuição”.

Num tom que singulariza as almas pequenas, tem concentrado baterias na opção de conceber uma ementa exclusivamente à base de legumes. Tem desfiado um rosário de comentários depreciativos, entre censuras mais ou menos veladas, com destinatário certo: Inês.

À noite, nos momentos de integral cumplicidade, o casal tem comentado esta crescente intromissão da matriarca, que julgava passageira e fruto de fatores inócuos. Contudo, a pronunciada ingerência de Constança tem – sabem-no os dois – ultrapassado os limites do aceitável no tom e na forma. Ainda assim, Fábio tenta enquadrar a questão numa perspetiva mais conciliatória e desculpabilizante, mas Inês tem alertado o marido para a necessidade de se clarificarem, de uma vez por todas, papéis e intenções.

Há dias que a nora parece encarnar uma pilha de nervos. Hoje, num momento em que estaria a debater-se com a necessidade de batizar uma nova sopa acabadinha de confecionar, à base couve-lombarda, feijão encarnado, cenouras, cebolas e grão, atirou inocentemente para o chef:

- Vai chamar-se Sopa da Sogra!

Não se tendo apercebido que Constança estaria a poucos metros de si, foi com espanto que se deparou com ela mal se virou para enxaguar as mãos. Surpreendida, a jovem logo tentou justificar a sugestão, enfatizando a ausência de “maldade ou de segundas intenções”. Mal ou bem, a sogra pressentiu poder usufruir de um pretexto para algo maior pelo que disparou:

- Para mim, acabou! Foi a gota d’água! Já basta o que basta!

Sem tempo para outras palavras serem pronunciadas, bateu em retirada numa coreografia visivelmente dramatizada.

Não tendo compreendido o que se havia passado, Fábio acabaria por responsabilizar Inês por esta altercação forjada por uma mãe celibatária. Estalara o conflito e a discussão entre ambos redundou numa fuga de Inês.

De volta ao mar que aceitou a encargo de confessor mor desta mulher partida, as dúvidas parecem borbulhar com dolorosa pertinência. Afinal, o que fazer? Reatar ou romper? Que futuro para aquele restaurante fundado para promover uma alimentação… verde? Com ou sem legumes? E eles? Com ou sem Constança?