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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Crónicas com tradição (XI) - Caldeirada de enguias?! Prefiro o peixe do talho…

07.06.24 | Servido por José Manuel Alho

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Imagem retirada daqui

Regressado às origens por opção. Um renomado arquiteto que dedicou a sua vida a conceber projetos para os melhores hotéis que hoje enriquecem a oferta turística nacional. Uma personalidade forte, poderosa, versátil e inventiva, abundantemente replicada em empreendimentos onde, como ninguém, soube conjugar o legado histórico com uma linguagem mais moderna dos espaços que conheceram a sua interferência.

O cabelo habitualmente desgrenhado, sublimado por uma barba grisalha, mas indomável, definem um solitário que renegou a urbe e todas as suas tentadoras agitações. De volta à casa cravada numa das margens do rio Vouga, o berço de uma infância prenha de sonhos e ambições, vive o degredo a que se obrigou. Perdeu a mulher e a sua única filha num arrepiante acidente de viação ocorrido há quatro anos. Foi a noite onde todas as tempestades se uniram para o tramar. Estava garantida uma semana de doce cumplicidade em Lisboa quando uma súbita mensagem de texto, servida pelo receado telemóvel, o informava que teria de, na manhã seguinte, comparecer numa reunião em Espanha sob pena de se perder uma oportunidade única. A instintiva submissão às exigências profissionais ditou o regresso precoce de mãe e filha a Aveiro. A escuridão cristalizada por violentas chuvas engoliu para sempre o património mais valioso deste homem. A vida e o sangue de ambas depressa escorreram para a valeta de uma estrada estupidamente impiedosa. Nunca mais viu, cheirou ou abraçou as suas mulheres. Mas todos os dias as sente. Mesmo quando os pensamentos mais tortuosos se soltam por entre as esquinas da casa, os seus olhos desenham estranhos movimentos que indiciam não estar efetivamente só. E é nessas ocasiões que aquelas cavadas olheiras ganham, por momentos, a lisura de um ser pacificado com a herança viva da morte.

Hoje vive do silêncio e para o silêncio. Como se de um estranho voto penitencial se tratasse. Renegou o telemóvel e só muito esporadicamente liga o computador para aceder à internet. Excomungou a televisão e, sem especial incómodo, vive dos rendimentos. Desde tenra idade, aprendeu a admirar a enguia. Até poucas semanas antes do despiste que lhe roubou as almas com quem verdadeiramente caminhava, estava determinado a ser confrade da Confraria da Enguia, em Salvaterra de Magos. Tudo deixou de fazer sentido. O desejo, aquele fundado capricho de “defender e promover a enguia como prato gastronómico” esmoreceu com a naturalidade de uma folha seca caída num fim de tarde outonal. Contudo, e por mais renegada que pareça, a paixão pela “Anguilla anguilla” (enguia) parece resistir a semelhante vazio, àquela tormentosa noção de perda aviltantemente irreparável.

Um puto da vizinhança, qua há dias o anda a chagar com a sua inocente irreverência, queixando-se da Prova de Aferição de Matemática que fez no mês passado, logrou cativar a sua atenção quando se referiu às enguias como “cobras nojentas”. O arquiteto, que já tinha amanhado e retirado a cabeça aos seres entretanto ofendidos, estando a lavá-los na última água para logo de seguida os raspar, sentiu-se impelido a desfazer tão sonso equívoco. Sem se aperceber, ganhou cor e da sua boca saíram palavras distribuídas por frases coerentes, num tom vincadamente professoral:

- Isso não se diz, rapaz. A enguia é uma espécie fascinante. Vive em água doce e no mar. Até pode ter uma aparência parecida à da serpente. Eu sei que tem um focinho pequeno com dois pares de narinas e uma boca larga, com pequenos dentes muito fortes e aguçados… Não me digas que ganhaste medo à enguia por pensares que podias ser atacado por uma?!

O miúdo, já cativado pela súbita simpatia do “homem do rio”, engelhou o queixo como que reconhecendo a associação.

O adulto continuou:

- Elas deslocam-se em qualquer tipo de água, procurando sempre os obstáculos para se proteger ou camuflar. Fazem a sua vida à noite. Não te preocupes.
Podem até sair da água e movimentar-se nas margens mais húmidas. Além do mais, têm uma impressionante resistência fora de água. Conhecem-se casos de enguias que sobreviveram mais de uma hora fora da água.
Em alguns locais muito especiais, conseguem atingir cerca de um metro de comprimento e com um peso que poderá ir dos 30 aos 35 quilos!

Lacónica, a criança pergunta:

- O que é que elas comem?

- A enguia é um peixe omnívoro e, sobretudo, carnívoro, com muito apetite. Depois de entrar no ciclo de água doce, alimenta-se de pequenos peixes, grandes larvas, enfim, tudo que seja animal vivo, morto ou mesmo em decomposição. – esclareceu o arquiteto.

Apesar do rosto de enjoo, o miúdo não se detém e dispara:

- Como é que o senhor consegue ter sempre tanta enguia? Usa alguma droga para as apanhar?...

- (riso) Olha, podemos pescá-las durante todo o ano. Basta uma cana com anzol. O que uso como isco é a minhoca ou sardinha. Elas são muito rebeldes. Engolem muitas vezes o anzol. E não te esqueças que em Portugal a enguia pode ser encontrada em praticamente todos os rios: Ave, Douro, Guadiana, Lima, Minho, Mondego, Tejo e, claro, o nosso Vouga… Também nas barragens, como d’Aguieira ou Crestuma Lever, há enguias…

O “homem do rio” tinha, afinal, boca e até falava. Ainda assim, a sua disponibilidade não tinha desfeito a ausência de empatia do petiz com o viscoso peixe.

Aquele homem sofrido viu no garoto traços de inquiridor insaciável que lhe lembraram a irreverência da filha. Desrespeitando todas as mais recentes regras de vida, e num derradeiro esforço de o arrebanhar para a facção apreciadora de enguias, convidou-o para uma caldeirada “no próximo domingo”.

Alheio ao poderoso impacto que significava a cedência daquele pai para sempre em luto, o miúdo, ainda zangado com a Prova de Aferição de Matemática, deixou outro laivo de despreocupada sinceridade:

- Caldeirada de enguias?! Prefiro o peixe do talho…