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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Crónicas com tradição (XII) - O verdadeiro bacalhau é o que seca ao ar!

21.06.24 | Servido por José Manuel Alho

bacalhau-seco.jpg

Imagem retirada daqui

Com o rosto tostado por mil estios e engelhado pelas agruras próprias de quem sempre pertenceu a uma família de pescadores, Madalena coloca ao sol o bacalhau já espalmado e coberto de sal. A alternância do vento e do sol far-se-á sentir, com justo peso e medida, naquelas redes que ainda não cederam às comodidades da seca mecanizada. Para os mais arrojados, que defendem aquela modernidade, esta mulher, de extraordinária força braçal, só tem uma garantia perpetuada pelo saber dos tempos: “o verdadeiro bacalhau é o que seca ao ar!”

Enviuvou cedo de mais. Perdeu António há pouco mais uma década. Vitimado por uma “coisinha ruim”, ficou o trajeto de um homem que, aos dezanove anos, optou pela pesca do bacalhau. E por lá andou mais do que os seis anos necessários para, naquela altura, livrar à tropa. Para início de carreira, acumulou dez campanhas no mesmo barco. Um feito ainda hoje mencionado na comunidade piscatória que os fez para a vida.

Das abreviadas conversas com o finado companheiro, recorda os lamentos de quem, durante seis meses, sentia que a vida se resumia a “trabalhar, passar muita fominha e a ser maltratado”. Apesar da categoria de redeiro, António sempre repugnou retirar nas tripas do peixe o fígado para fazer o óleo e, nas cabeças, aproveitar as caras e as línguas. No mais, o facto de não tomar banho e de só receber um litro de água doce de oito em oito dias foram espinhos que sempre partilhou como inerentes à função.

Madalena não tira da ideia a certeza de que terá sido no mar que António terá ganho a doença que o “levou”. Lembra, com o olhar humedecido pela emoção, as noites cortadas por transpirados pesadelos. Afiança ela que “ele vivia atormentado por aqueles momentos que que o sino tocava para reunir os botes”. Em boa verdade, era nessa altura que percebia ter perdido muitos companheiros de faina. Afogados. Desaparecidos no mau tempo. Gente que nunca mais ninguém viu. Almas penadas que lhes “pesavam no lombo quando chegavam todos porcos a St. John’s”, principal porto bacalhoeiro da Terra Nova, no Canadá.

Agora, as venturas e desventuras vividas nos mares do Hemisfério Norte, perseguindo cardumes do “fiel amigo”, que marcavam o seu território desde a Terra Nova até à Islândia e Noruega, são heranças caladas por um presente de negro vestido. Uma medalha devida. Um prenúncio de morte.

Madalena tem ainda um negócio pequeno de venda onde, “com esta crise que está a desgraçar o povo”, tudo faz para manter os clientes. Lamenta-se que “a juventude não gosta de bacalhau”. Uma pena. De prosa facilmente convincente, dirige-se a um potencial comprador que nunca viu na sua casa. Parece indeciso. Sabe o que quer, mas não sabe como escolher. Aproxima-se para desfazer a hesitação:

- Ó meu senhor, leve este peixe que é de confiança. Sabe, o bacalhau tem de ter uma cor amarelada, ‘loiro’ da cor do grão! - elucida com sucesso.

Cliente cativado, negócio fechado. Começou a fatiar mais umas postas. Em jeito de graça para surripiar um sorriso que garanta o regresso do freguês, atira:

- Leva um peixe que é uma beleza! Não engana. Até cheira a bacalhau!