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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Há caixões que não sobem... nem de elevador!

14.03.24 | Servido por José Manuel Alho

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Imagem Freepik

Foi num daqueles sábados que, em família, decidimos experimentar o pasmo essencial de conhecer outra terra, onde nos aguardavam prezados amigos para um almoço há muito programado. Chegados a horas, e porque a confeção do prato conhecera esquentados contratempos, optei por dar umas voltas pelo centro de tão altaneira localidade para, viabilizando ritual há muito instituído, comprar a imprensa diária. Naquela zona poluída por um chorrilho estúpido de prédios que até esmagava a linha do horizonte, negligenciado pela inexistência de espaços verdes e pela surpreendente escassez de zonas de estacionamento, deparei-me com uma situação cativou a minha atenção por resultar desde logo de uma manobra brusca perpetrada por uma assanhada carrinha funerária.

Forcei um pretexto para interromper a marcha. Lancei mão do “alhofone” para atender uma chamada muda, daquelas sem emissor, que nos salvam de situações para as quais já não temos pachorra. Fiz-me cusco. Também tenho direito. Há quem lhe chame espírito de observação.

Da viatura com grafismo assinalavelmente adequado para o serviço, denunciando arrojo empresarial q.b., saíram dois sujeitos trajados a rigor. Aberta a porta traseira, fizeram deslizar a urna que, com pujante agilidade, transportaram para a entrada do prédio. Chamaram então o elevador – luxos usuais nas construções em propriedade horizontal, que também servem para endividar brutalmente os condomínios… – procedimento que parece ter sido a causa de um imprevisto dilema. Consumadas acrobáticas tentativas, nem de esguelha o caixão cabia no elevador para resgatar o corpo, que residia num andar superior. Nos seus rostos, pareceu-me ver estampada a certeza de que afinal haverá caixões que não sobem. Nem de elevador. Cabeça fria. Profissional vivido tem sempre solução. E foi o que aconteceu, se bem que a alternativa encontrada não seja própria de um visionário multifacetado.

Os dois, certos de que naquele bloco habitacional só havia falecido um indivíduo, deixaram a urna aberta no átrio principal do prédio, bem ao lado do placard da Administração do Condomínio, onde constavam as identificações de alguns caloteiros. Enquanto subiram, outros condóminos (crianças incluídas) desceram pelas escadas, deparando-se com macabro cenário. Sem mais: um caixão aberto. Temendo porventura que as medidas do habitáculo, ostensivamente vazio, fossem compatíveis com as de alguns dos andantes, ninguém se deteve. Percebeu-se imediatamente que não tinham sido aqueles a requisitarem tão invulgar serviço. Esgotada uma quinzena de minutos, os diligentes, mas, entretanto, suados funcionários, concluem o descendente raid no elevador, agora devidamente acompanhados pelo cadáver, que souberam segurar e finalmente depositar no caixão. Envolvido num tecido, o som abafado e teso do corpo que passou a preencher a urna impressionou-me.

De volta ao carro, não rodei as chaves. Preferi-me na lucidez da solidão. Vi-me assaltado por um turbilhão ingovernável de pensamentos. Todos eles sobre a morte. Vá lá! Todos pensamos nela. Faça uma pausa. Não se deixe, por momentos, conduzir pelas minhas linhas. Reconheça. Pensa mais na morte do que racionalmente presume. Eu, por mim, desde 11 de março de 2003, sou como o outro: “Não é que tema a morte. Só espero não estar presente quando ela chegar…”

Quando, onde e como morreremos são especulações humanas naturais e até legítimas, que denunciam a inevitabilidade de que, na Vida, o que temos de mais certo é justamente a morte. A título de curiosidade, já se deu conta que, há já vários anos, viveu o dia da sua morte?! Pode ser que seja a 21 de março como a 8 de novembro ou a 29 de dezembro… Já todos o vivemos.

Por exemplo, quem, no mais íntimo da sua privacidade emocional, não desejou estar presente no seu próprio funeral?! Apreciá-lo. Fazer-se passar por alguém desconhecido mas suficientemente credível para caçar alguns comentários a respeito de si, o(a) falecido(a). Ouviríamos palavras de elogio sincero ou, simplesmente, de ocasião? Ouviríamos frases de alívio ou de severo reparo? Vislumbraríamos rostos granjeando indiferença e enfado, em razão do cumprimento de (mais) um dever social ou olhos inundados de justificada saudade? E o que conteriam os cartões acoplados aos ramos ofertados? Meras assinaturas ou merecidas homenagens? Em resumo, hoje, se um de nós morresse, haveria algo de relevante que tenhamos feito, dito ou construído que justificasse a convocação dos que nos conheceram na partilha de “tão profundo e doloroso transe”?

 

 

PS – Na hora da morte, justiça seja feita: há pessoas que ficam estranhamente sérias e honestas, ao ponto de recuperarem a memória. Daí que eu, José Manuel Alho, desde já manifeste a minha indisponibilidade para aceitar, a título de liquidação de dívida(s), cheques (traçados ou não) lançados aquando da abertura da minha urna, no momento do derradeiro adeus. Antes forreta que parvo. Dito de outra forma, para não melindrar gente urbana e mais sensível: “Eis o exemplo de um irmão que, no respeito de um ancestral, mas douto pensamento popular, nunca emprestou dinheiro para não perder um amigo”. Ou outra variante do epitáfio "A partir de hoje, não contem mais comigo."