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O Banquete

A República de Platão é o livro mais conhecido do filósofo grego. Contudo, em "O Banquete", também conhecido como Simpósio, Platão vai discutir as naturezas do amor e da alma.

Poder local: o silêncio dos aplausos

Quando o ruído da bajulação abafa o som amargo da verdade.

07.11.25 | Servido por José Manuel Alho

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Entre cofres cheios e escolas sem vassouras, ergue-se o retrato amargo de um poder que confundiu gestão com vaidade. Quando o saldo bancário se tornou troféu e a omissão virou rotina, a dignidade da comunidade ficou a crédito. Agora, cabe ao novo executivo limpar mais do que o pó: restaurar a decência do serviço público.

Há quem confunda legado com saldo bancário. Há quem acredite que deixar uma conta positiva é sinónimo de obra feita. Mas a dignidade de uma comunidade não se mede pelo saldo numérico, mede-se pela decência do quotidiano. Que significa ter 130 mil euros nos cofres, quando nas escolas foram as funcionárias a levar de casa vassouras e esfregonas? Que grandeza se reclama quando o brilho das paredes esconde a poeira da negligência?

Tragicamente, o poder autárquico, em certas circunstâncias, degrada-se quando se perde em encenações domésticas. Nunca se entendeu como uma simples funcionária administrativa pôde comportar-se como presidente, impor-se, mandar, decidir e - pior ainda - fazê-lo à vista de todos, sem censura nem correção. Quando o poder legítimo abdica da responsabilidade, o abuso ocupa o trono. Hannah Arendt escreveu que “a perda da responsabilidade é o princípio de todo o mal político”. E é disso que se trata: omissão e consentimento.

Um autarca cessante emocionou-se no adeus. Falou de honra, de compromisso, de amor à terra. Mas não se honra uma terra escondendo-se dela nos dias em que arde. Quando a tragédia dos incêndios devastou o território, a ausência fez mais ruído do que todas as sirenes. É nessa altura que se mede a coragem política: não nas festas de inauguração, mas nas cinzas do desamparo.

Doença incurável? Que ninguém confunda o foro humano com o político. A compaixão é um dever cívico. A manipulação emocional, uma indecência. A política não é palco para piedade fingida. É o espaço onde se responde perante os outros e se trabalha, ainda que doente, com verdade. Como lembrava Camus, “a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente”.

Quem assume agora, depois de sufragado nas urnas, esse legado tem a obrigação ética de restaurar a autoridade, não a autoridade do grito, mas a do exemplo.

Pôr a casa em ordem é mais do que varrer o pó acumulado: é devolver o sentido do serviço público. É garantir que ninguém usurpa funções, que a transparência não é slogan, e que a gestão deixa de ser utensílio de vaidade.

Que o novo executivo recorde o aviso de Rui Belo: “O poder, quando se habitua ao espelho, esquece o rosto dos outros.”

Não basta herdar uma cadeira, é preciso merecê-la.